SANCTUS BELLUM, Por Caroline Garcia


Há algum tempo venho sendo "incompleta nos dizeres", como diz meu marido. Falo as coisas pela metade, dando a entender uma mensagem. Mas como era de se esperar, sou responsável pelo o que digo, e não pelo o que tu entende.
Porém, pelo meu bem e pelo bem de quem me lê, tentarei ser mais explícita.
Ontem mesmo, vi um amigo de longa data dizendo "A Carol, pagã, entende mais de cristianismo que muitos cristãos". Talvez. Levando em conta que quem me tornou pagã foram os próprios cristãos, pode ser que seja verdade. Um dia conto como foi esse processo, se alguém quiser saber.
Mas... voltemos ao objetivo deste texto.
Há algum tempo atrás, disse que me sentia na Inglaterra do século XVI, quando li notícias sobre o Sínodo da Amazônia. Como temos o péssimo hábito de estudar História decorando datas e não relacionando os fatos com a vida cotidiana como deveria ser (penso seriamente em terminar minha Licenciatura), obviamente que não chegou a mim ninguém que tivesse entendido a afirmação. Então vou explicar, de forma mais resumida possível.
No século XVI, houve uma grande disputa entre católicos e protestantes. Tudo começou de fato (tipo... não exatamente, mas o estouro da boiada foi ali) com Henrique VIII renegando uma mulher católica e querendo outra que se suspeitava ser protestante (e que nem era). A Igreja Católica por sua vez proibe a anulação do casamento dele, e como era de se esperar, houve um grande escândalo porque até a virgindade de sua primeira esposa foi questionada (sempre recai sobre o decoro da mulher, alguém surpreso?). Basta ler um pouco mais sobre o assunto para entender que a "birra" não tinha absolutamente nada a ver com sexualidade/castidade/decoro/sacralidade. Tinha a ver com poder, gente! Até então a Igreja mandava numa esmagadora maioria de reis europeus! Vocês acham mesmo que o Henrique ia mesmo poder mandar em toda a bagaça, ainda mais envolvendo uma aliança entre o país dele e o país mais católico do período (sim, meus senhores... a Península Ibérica deveria ganhar o certificado de maior carola da História)? Claro que não. Não em paz. Já ouviram falar em Absolutismo? Tá. Me propus a vir explicar mas também não é pra tanto. Dá uma googlada na palavra e depois volta aqui.
Bueno. Agora passa o filme para a frente. Brasil. Século XXI. Mais precisamente segundo semestre de 2019. Com uma massa de políticos protestantes (é isso mesmo que tu leu: PRO-TES-TAN-TES! Chega de chamar de cristãos. Cristãos tem aos montes e aos montes de tipos também e vamos ter que aprender isso na marra agora). E se originando nesta "bancada evangélica" como muitos gostam de chamar, várias medidas que impactariam ambientalmente e sociologicamente a Floresta Amazônica, que como todos sabemos, é patrimônio mundial. Também não vou fazer levantamento dessas medidas aqui, não tem espaço. É aí que a coisa toda recomeça. Ninguém menos que Papa Francisco (carinhosamente chamado por mim de "Seu Bergliogo") surge com o Sínodo da Amazônia colocando a Igreja Católica numa posição que ela nunca teve: a de apoiar os nativos como eles são, e manter suas propostas de proteção ambiental como estavam! Cara, vocês pararam pra pensar na jogada desse cara? VOCÊS PARARAM PRA PENSAR? Uma Igreja que sempre trabalhou com aculturamento. Sempre, desde o século III! É óbvio, e não entendam que o que estou falando é maldade. estou apenas falando de História.
Nosso país nunca foi laico. NUNCA. Nem quando não tinha europeu aqui. Os Caciques sempre consultam os Pajés, gente. Não sejam ingênuos pensando que é ao contrário. Nossas leis atuais estão perfeitamente alinhadas com os dez mandamentos. Temos crucifixos nos plenários e sala de justiça. Juramos com a mão sobre uma Bíblia (ia ser massa no meu caso! Eu poderia mentir num depoimento oficial sem nenhum peso na consciência, se eu dependesse de uma Bíblia para manter meu caráter... já pensaram?). Somos um país majoritariamente cristão. É fato.
Isto posto, olha que legal: os protestantes estão tomando conta! Igual a... isso mesmo! Igualzinho à Inglaterra do século XVI. Rá!
Mas... agora vem uma coisa interessante. Temos um papa argentino. E isso está além da imaginação. Um cara católico, argentino, poderoso, tem se mostrado uma das pessoas mais SENSATAS do mundo todo. Gente, se isso não é um sinal dos tempos, não sei mais o que é.
Daí, dia desses disse que me sentia na Europa Medieval. A afirmação vai muito além de falar em Peste Negra. Acompanhem: uma doença que é prevenida com higiene e isolamento vira pandemia. Pessoas colocando pedaços de tecido vermelho na frente de suas casas para avisar aos agentes de saúde que ali mora alguém do grupo de risco e precisa de remédios. Gente falando mal de remédios e usando óleo ungido no lugar (óleo... contra um vírus envolto por uma camada lipídica). Profissionais de saúde sendo agredidos fisicamente ao voltar de seus trabalhos nos hospitais. E... PESSOAS SE AGLOMERANDO EM IGREJAS!!! Mas não em Igrejas Católicas (que estão fechadas). Mas em Igrejas Protestantes. Vocês acharam que eu estava descrevendo a Peste Negra? Não, estava falando da pandemia atual mesmo. Gente, teve até caso de uma igreja em específico, devidamente denunciada, que estava com uma placa na sua porta da frente informando que devido às medidas de proteção, não haveria culto; mas estava colocando os fiéis para dentro de seu salão pela porta dos fundos! Veja só (aliás se eu estivesse falando e não escrevendo, articularia muito bem essa palavra: P.O.R.T.A.D.O.S.F.U.N.D.O.S. Piada pronta isso aí). Que beleza. Pode parecer um caso isolado, se observarmos que há uma parte dos religiosos protestantes que não compactuam com o pensamento desta entidade, e estão sensatamente cuidando da saúde dos fiéis, respeitando os profissionais de saúde e por aí vai. Porém... em números e em poder de comunicação, esta entidade em específico está em destaque na comunidade protestante no Brasil. E isso torna as coisas muito mais graves. Temos o péssimo hábito que reverberar tudo o que é negativo. Então, socialmente falando, não vamos enxergar o pastor que está respeitando medidas e protegendo seu rebanho. Vamos enxergar o cara que vai à TV aberta reclamar que tem que deixar a igreja aberta. Vamos enxergar o cara que concorda que é só uma gripezinha.
Vamos voltar à Europa medieval/renascentista? O povo temia a Deus (princípio básico: o animal humano teme tudo o que não pode explicar. Ponto). Logo, o povo temia a Igreja. A Igreja afirmava que o Rei era abençoado por Deus. O Rei endossava o pagamento de dízimo além de seus impostos. Ah! E também era muito importante ser humilde (leia-se humilde = pobre). Te lembra algo? Pois é. Lá foi assim até o dia em que surgiu um cara chamado João Calvino e acabou com a paz de todo mundo, dizendo que esse negócio de humildade era balela, e que o trabalhador merecia ganhar pelo o que produzia... e que isso era abençoado/predestinado/apoiado/endossado por ninguém mais ninguém menos que Deus! Uou!
Não entendeu? Dá uma googlada na palavra Contrarreforma. Garanto que agora vai ser mais divertido do que na sala de aula quando tu fez o Ensino Fundamental.
Bueno. Voltemos ao Brasil. 2020. Pandemia. Corona Vairus tocando o horror te esperando lá na esquina. Pastor berrando na TV que quer abrir seu templo. Empresários fazendo carreata. Corona Vairus tocando o horror te esperando lá na esquina. Governadores e prefeitos contrariando um presidente que (infelizmente por causa de suas próprias sandices) têm sido mais figurativo do que qualquer outra coisa - convenhamos que até o próprio Ministério da Saúde tem ignorado seus discursos e segue seu trabalho como se nada houvesse sido dito pelo líder da nação. Corona Vairus tocando o horror te esperando lá na esquina. Fake News pra todo lado e a tia da tia mandando fazer gargarejo morno. Casa com pano vermelho na frente. Corona Vairus tocando o horror te esperando lá na esquina.
E em meio a tudo isso, alguns líderes religiosos protestantes de maior destaque em nosso território (eu disse maior destaque e não maior relevância, porque digo e repito: tenho visto cristãos inclusive protestantes fazendo um lindo trabalho de prevenção e auxílio) ignorando toda e qualquer medida de segurança simplesmente porque estão perdendo o controle comercial de seus afortunados dízimos. É isso mesmo! Ah, vocês acharam que o caso destes senhores em específico tinha a ver com Salmos 122:1 ou com Atos 2:42? Poxa... desculpa. Não estou sendo irônica. Estou pedindo desculpas mesmo, de verdade. Porque eu sei que dói. Deve doer mais ou menos como no dia em que descobri que os Celtas comiam muita carne.
Estou falando apenas em números. Pense em um fiel que entrou pela porta dos fundos daquela Igreja contaminado. Agora pense que ele contaminou os colegas. Agora pense que cada um deles contaminará mais 5 pessoas.
Fé é uma coisa que podemos praticar em qualquer lugar. É ingênuo pensar que esta fúria tem a ver com o direito de pessoas da mesma fé se reunirem. É mais ingênuo ainda pensar que Igrejas foram inseridas na categoria de "serviços essenciais" pelo mesmo motivo. Volte ao décimo segundo parágrafo desse texto. Bastaria ter estudado História.
E depois de tudo isso, o que mais nos surpreende ontem?
O Papa, SOZINHO, fazendo uma oração que entre outras coisas, servirá de Extrema Unção aos católicos que vierem a falecer sem poder falar com um padre. Sozinho. Naquela imensidão e imponência toda construída através dos séculos. Usando os canais de comunicação que não colocam em risco os fiéis. sem alterar o tom de voz. Sem nada. NADA. Vocês têm noção do PODER disso?

Nesta Guerra Santa secular, esta batalha o 'Seu Bergliogo" ganhou.


* Caroline Garcia é jornalista, gestora cultural, atriz, dançarina e artesã.
@carolinegarcia






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