PALCO AMBULANTE




O atraso dos ônibus nas rodoviárias é algo normal, mas que renderia uns bons processos se todos abrissem os olhos, ah renderia. Quem depende deste transporte sabe que as respostas, as desculpas, são sempre as mesmas, ou melhor, a mesma, “as estradas estão ruins”, isto dá uma leve queimação por dentro, uma ardência nos olhos, uma vontade de xingar, lhes apresento a chamada raiva. Ainda bem que os ônibus parecem um palco de teatro, pois existe cada figura que nele embarca...
Logo no inicio tudo parece dentro dos conformes, pessoas enfileiradas em suas poltronas, dormindo, ou não, falando com alguém no celular, olhando pela janela, tudo tranquilo, até o ônibus dar a partida, porque dai parece que as cortinas do espetáculo se abrem. Claro, não são em todas as viagens que acontece algo, mas na maioria. Passado algum tempo da viagem já se começa a ouvir sons que antes não eram emitidos, dai você se dá por conta de que este som nada mais é do que alguém roncando na poltrona ao lado.
Lá para o fundo está uma criança de colo, que não merecia estar andando nesta espécie de carroça atual, mas você se dá por conta que ela também faz parte do espetáculo. Por quê? Pelo simples fato de ela chorar, chorar, chorar, e... vomitar! Existem também aquelas senhoras que oferecem ajuda quando a criança não para de chorar, muito simpáticas, mas não percebem que a criança tem irmão ou irmã e dão apenas um chocolate, ou uma bala. Tenho a leve impressão de que este doce irá para a boca errada, apenas pelo olhar da criança maior.
Logo à frente está outra senhora, esta pela vestimenta, parece ser uma freira, e seus atos me confirmam a conspiração. Retira de sua bolsa simples e humilde um terço, faz o sinal da cruz e inicia sua reza. Diferente da moça sentada ao meu lado, que ao invés de um terço, puxa um pão e salame de sua bolsa e se alimenta, errado? Óbvio que não. Apenas algo peculiar da moça.
Chegamos então ao ápice. Depois de ouvir um repertório inteiro de toques de celulares, alguém atende, mas o DETALHE, não só para si. “Sim tô levando as batatas da mãe, aquela desgraça”, diz a mulher da poltrona 25. Mas nada se compara às senhorinhas que sentam ao seu lado e sem querer você esbarra o tecido de sua calça no joelho dela. O pedido de desculpas logo em seguida mais se parece com um convite para conversa, a partir dai você descobre quantos filhos a senhora tem, o nome de cada um, talvez até a idade, descobre alguma briga de família, a faculdade que cada um faz e assim vai, uma biografia completa da senhora desconhecida ao seu lado.
            Ao final da apresentação podemos ter uma pessoa, ou várias, sentadas na poltrona errada gerando um tumulto enorme durante a viagem, ou podemos ter também um senhor que se senta ao seu lado e logo que você acorda lhe diz “menina, vi que você é distraída, entraram alguns rapazes bem rapidinhos, toma cuidado” dai em diante sua viagem é um misto de medo, sono, angústia e desconfiança, mas no mais tudo bem. Pareço ser rude, mas não é a intenção, afinal, dependendo da viagem são estas figuras que alegram e entretêm os tantos quilômetros que se tem a percorrer.

**Monalise Canalle  é Jornalista, atua na @TVWebConectaMais de Nova Prata.  Ela é apresentadora do Programa Algo a Mais e amo escrever. Monalise apoia o Projeto Oficina do Verso.Com .

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