BRASIL: EXPORTANDO BOÇAIS PARA A RUSSIA

Precisamos aprender a separar o que nos convém 

do que nos faz bem. 




Não foram pobres, pretos, detentores de cotas ou operários.
Não foi a classe c ou  d (com letra minúscula, sim, tão minúscula quanto a visibilidade que a vida nos dá) ou qualquer outra classe social, inventada para subtrair de nós, seres humanos,a nossa dignidade.
Não foram pessoas sem recursos financeiros com status de risco social ou bandidos de presídios, embora o sejam ( bandidos) aqueles os quais eu assisti. 
É muito importante lembrar que um dos delinquentes que manchou, mais uma vez, o nome do povo brasileiro também é ou foi um político, eu disse po-li-ti-co. 
Será que essas pessoas, em seus respectivos cargos ocupados no mundo corporativo, político ou  em convívio social, não demonstraram em outras oportunidades serem perfeitos estúpidos? 
Quando o comportamento de homens como esses passa despercebido na sociedade dita culta e civilizada? 
Não consigo dormir. Nem um rivotril , se  tomasse, me faria parar essa vontade de regurgitar letras, perdão. Preciso colocar pra fora toda a indignação e vergonha que sinto. Vergonha alheia. Já ouviu falar? 

Enquanto procuro não assassinar a literatura, a Voz do Milênio, aquela pessoa valorosa e brilhante que diz: " A carne mais barata do mercado é a carne negra", canta num programa de entrevistas. E nem a Elza Soares me tira dessa imensa  e profunda revolta, que busca na reflexão, não me deixar  pirar de vez.
Ocorre que essas criaturas vergonhosas que assediaram mulheres em outro continente, foram gerados e criados, amamentados, suponho, por mulheres. Então, mulheres, está na hora de revermos, também nossos conceitos sobre o que e onde está o erro ao criarmos bebezinhos adultos, criaturas tão afetadas e  de absoluta falta de noção?

Essa semana decidi que meu livro, cuja a escrita progride a passos de tartaruga, será dedicado à causa feminista. Pois essa causa é minha, sua, nossa. Sim, quer queiram ou não àquelas  mulheres que são contra às mulheres e que insistem em não ver o óbvio. 
Não tenho outra forma de me manifestar. Sou mulher, negra. Não, espera um pouco, descobri há alguns dias que sou afro-bege. Não sei se o horror maior é ser parda ou afro-bege? Sempre acreditei que sou uma mulher e ponto. Nunca havia parado pra pensar que era uma mulher negra ou afro-bege ou parda, pois pra mim tanto faz. Mas isso é assunto para outro dia...
Voltando: mulheres, está na hora de revermos nossos conceitos e tentarmos entender onde foi que erramos ao educar criaturas como as que estão na Russia assediando mulheres que não falam nossa "língua brasilis"? Imagino o que esses filhos de mães brasileiras não fazem por aqui... 
Vou contar uma história: tive uma amiga que pertencia a uma família classe média alta, de sobrenome europeu, acima de qualquer suspeita. Certa vez ela me surpreendeu com a seguinte confissão "engraçadinha" : Dizia ser o exemplo de atitude de mãe amorosa e dedicada a seu filho caçula. Saía, essa mulher, de casa para ir ao mercado público da cidade comprar  caixas  de rojões e bombinhas para o filho de 25 aninhos soltar a noite, na rua em frente a sua casa e também na portaria de prédios vizinhos, daquele bairro nobre da capital. 
Ria, orgulhosa, da atitude do filho, se vangloriando de que jamais suspeitariam que os rojões vinham  de sua casa. Casa de gente " fina, elegante e sincera", plagiando o poeta. 
Me senti traída, me senti uma babaca (já me senti assim muitas vezes na vida), pois durante 20 anos acreditei e tive em alta conta aquela pessoa. Nunca mais consegui ter o mesmo olhar, nunca mais a procurei. Meu estômago embrulhava enquanto ouvia e observava aquele sorriso de vantagens e superioridades a despeito daquela "historinha inocente". Entendeu? Ou quer que eu desenhe? Freud me acuda, por favor!
Enfim, em nome da tradicional família brasileira e em defesa dos valores dessa gente elegante acima de qualquer suspeita, políticos farão comícios em busca de votos e nós iremos ouvir e aplaudir, acreditando que estaremos agindo em prol do bem e dos bons costumes!

Precisamos aprender a pensar e é pra ontem.
Precisamos aprender a separar o que nos convém do que nos faz bem.
Precisamos  acordar para um futuro pautado em ações e não em promessas. 
Eu não quero mais errar no meu voto. 
Eu não quero mais ser conivente com essa  sociedade ignorante e machista.
Eu não quero mais enterrar meu País com o meu voto irresponsável. 
Eu quero um País com homens que respeitem todas as mulheres. Que não envergonhem suas mães, esposas, irmãs, vizinhas, colegas de trabalho. 
Quero uma País onde mulheres saibam o seu valor e não  envergonhem a si mesmas. 
Quero um Pais onde eu possa conseguir trabalho suficiente pra ter dignidade e ver meu vizinho, meus filhos e meus amigos também com dignidade. 

Eu ainda acredito na maioria das pessoas e sou fã de muitas que jamais estarão no noticiário, embora mereçam; pois suas ações cotidianas são dignas de aplausos e deveriam ser mostradas por conta do exemplo positivo.
Tenho usado o metrô e ônibus e aproveito para  observar quanta gente de olhar do bem e quantas atitudes bacanas e gentis tenho colecionado na memória. 

Além do horizonte negro que a TV nos aponta, existe gente muita bacana, concebendo que é possível e fazendo o impossível pra se manter de pé. Gente que não tem poder aquisitivo, como eu não tenho, pra ir à Rússia. Gente que existe de verdade e não apenas nas mídias sociais. Gente que por viver e ter que sobreviver, não gasta tempo se alimentando de likes em suas selfies.

Eu acredito e preciso por a boca no trombone, mesmo que não seja lida,o que é bem provável, mas se alcançar uma pessoa, apenas uma, que ao acessar esse pequeno e tão insignificante veículo, entenda não estar só; que existe saída a partir da  importante ação do nosso voto, estarei grata e crédula de que valeu a pena.

Preciso acreditar que onde houver sol é pra lá que o nosso País vai estar, logo ali, bem perto, após as próximas eleições. Por ora, vou gritando meu grito surdo.



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