CARNAVAL

Toda a madrugada foi consumida pelo samba.

Desfile Beija Flor , 2018- Foto Juliana Dias SRzd

As vestes coloridas refletem o sol que já descamba
anunciando que o amanhecer vai desfilar pela Avenida.
O novo dia, irreverente, pede aos foliões, guarida.
A aurora carnavalesca desenhou outros caminhos.
Sandálias prateadas, ora extenuadas, pisotearam sobre a noite.

Alguns, imitando passarinhos, com asas leves tremulando ao vento,
num faz de conta que dissimula os mais íntimos sentimentos.
Há dragões, borboletas, elefantes...
Carros alegóricos, corpos suados e brilhantes: mais um bloco na rua
expondo instantes de emoções que suplantam a realidade crua!
Um folião empolgado pula, canta e ri:
sonâmbulo, eufórico, embriagado e infeliz.
Os olhares atentos que vêm das arquibancadas,
não enxergam sob a máscara, a cicatriz!
A lágrima do pierrô desce ligeira e lhe beija a face.
É carnaval. No rosto, é fácil colocar disfarce
enquanto as dores no peito fazem a folia.
Subitamente, é como se a avenida fosse o calvário
que ostenta um padecer festivo e voluntário,
pois na alma, cada um é o que é: a alma não veste fantasia;
não dissimula a solidão latente que dança na passarela vazia!

E continua o festival de luzes, confetes e lança-perfume,
na avenida onde o riso, a dor, a esperança, tudo enfim,
em samba-enredo se resume.
E para protestar contra um mundo impetuoso e violento,
o último bloco passa envolto em plumas brancas:
são pombas da paz que arrulham seu intento!

Depois do carnaval, talvez alguns sigam sendo o que não são,
fantasiando, levando a vida em ritmo de brincadeira.
Outros, compreendendo que a alegria do carnaval foi ilusão,
deixarão chorar o próprio coração
em meio às cinzas de uma quarta-feira!


Lúcia Barcelos 
@lucia.barcelos.52

Comentários