COLUNA: AS MARIAS

Lúcia Barcelos 

SIMPLESMENTE MARIA 



Era um final de tarde. Sexta-feira cinzenta de um inverno que parecia ter vindo para ficar.
Há mais ou menos uns vinte dias o sol não dava o ar da graça! Não dera o seu abraço quente para quebrar o gelo invernal ou, ao menos, transformar em brisa morna o sopro gélido da boca do vento que persistia numa ronda cotidiana desarrumando tudo à sua volta.
As nuvens construíram uma barreira densa e escura e, por vezes, precipitavam-se num gotejar intenso. Nos intervalos dos torós, um chuvisqueiro fino turvava a paisagem.
Aquele rigor do clima parecia até um complô contra quem não tem agasalhos para enfrentar frio e chuva! Os barracos, casebres mal construídos, não ofereciam resistência e nem proteção: eram, em seu interior, um quase céu aberto sobre um chão úmido e lamacento.
Dentro daquelas minúsculas casas, a escassez de alimentos mal dava para a subsistência, e os itens que ainda restavam para serem consumidos eram totalmente desprovidos de qualquer valor nutritivo. As pessoas dali, subnutridas e fracas, contribuíam com as estatísticas: o percentual de quem sofre de todos os tipos de carência.
O dia não foi produtivo para Maria, que saiu daquela vila ainda na madrugada e perambulou pelas ruas do centro da Capital, encharcada, sem a proteção de uma capa ou sombrinha, com os pés muito sujos e pesados de lama, já que um reles par de chinelinhos que lhe calçava, não impediu a aderência de toda a imundície jogada nas ruas e carregada pelas águas da chuva.
E Maria continuava: apenas um vulto em meio à tarde esfumaçada pela garoa, empurrando um carrinho de supermercado que há tempos ganhou para armazenar o resultado de sua coleta diária de materiais descartáveis.
...Mas o frio inibe a sede: desaparecem as latinhas de cerveja, refrigerantes, sucos... As caixas de papelão colocadas à margem das calçadas na frente das casas de comércio, pareciam trapos empapados engrossando a feiura dos caminhos por onde Maria pisava.
Ela sentia-se quase sem energia para continuar andando. Era um vazio no estômago, um vazio no peito, um vazio... E então ela deu-se conta de que não havia jantado na noite anterior. E que também raramente tomava café às cinco horas da manhã quando saía de casa. E que naquela sexta-feira fria, tal e qual tantos e tantos outros dias de inverno iguais ou piores do que aquele, não teria o que vender para fazer dinheiro, para depois converter em alimento. Já tinha vivido tantos dias sem comer... Durante tantos anos a sina se repetia... Mas sobreviveu até ali com a caridade de alguém num dia... No outro, com uns trocados da venda dos recicláveis.
Os automóveis passavam velozes, e o deslocamento de ar causado por eles, estranhamente e pela primeira vez, lhe deixava tonta.
Ela até nem tinha pressa: em casa não havia ninguém à sua espera, mas logo chegaria a noite e ela precisava descansar um pouco. Precisava manter-se de pé, atravessar a rua, voltar p’ra casa, mas os automóveis não paravam de passar com tanta velocidade e a visibilidade tão prejudicada pelo mau tempo!
E foi um momento: um estrondo. A noite desceu, estrelas brilharam e Maria já não sentia mais vazio, nem fome, nem tontura, nem a umidade da chuva que lhe encharcou o corpo todo pelo dia inteiro.
De repente o cansaço desapareceu e ela começou a subir por uma clareira. E quanto mais subia, mais perto chegava do dia que se anunciava no horizonte. Chegava perto de onde tinha sol, chegava perto das nuvens... E as viu perdendo aquela cor sombria do inverno e vestindo-se de uma alvura florescente.
Ei-la, Maria, chegando num campo farto de flores, de plantações e de frutas viçosas. E suas vestes, agora secas, tornaram-se claras e luminosas. Seus pés cansados de tanto caminhar catando sobras, não tinham mais vestígios de lama ou calosidades. Ironicamente, ela nem mais precisava deles: abriu suas asas e acompanhou os pássaros e as borboletas naquele imenso espaço de luz!


Lúcia Barcelos

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