TEORIA LITERÁRIA: O SENTIDO DENOTATIVO












– ... as palavras em estado de dicionário, ou seja, fora de contexto, têm apenas o sentido denotativo, frio e impessoal. Se contemplarmos as palavras atentamente, de perto, perceberemos que cada uma tem mil faces secretas (conotação) sob a face neutra (denotação). * Valéria Pisauro, 2011.

“DEFINITIVO
(para o Nestor)

Ligia Lacerda

Chegaste em minha vida
mansamente,
como quem nada quer.
Mãos vazias de mágoas,
trouxeste bênçãos.
À quem já não sonhava
devolveste a paixão.

Mansamente,
como quem nada quer,
te fizeste presente
e, definitivo,
plantaste raízes.
Chuva em terra seca,
transformaste a paisagem.

Chegaste em minha vida
para sempre.".

Olá, amigo Moncks! De dois poemas, fiz um só. Critica, por favor. Ligia.

Vamos ao exame da obra proposta como poema, eis que escrita em versos. Este exemplar (que pretende ser peça poética) parece-me bem melhor que os dois anteriores poemetos, lavrados sobre a mesma temática amorosa: a do amado que chega para mitigar ausências. O que mais agrada ao analista que acompanha a tua criação, é que nesta nova fase de experimentação poética já não tens mais complacência com o (doloroso) sentir e o choramingar característico do verso feminino sobre a temática do amor, especialmente o canto lírico-amorosos das diletantes ou amadoras. Enfim, creio que descobriste que fazer poemas é bem mais do que apenas escrever bem vocabular e gramaticalmente, de modo a que o sentido DENOTATIVO da linguagem (claro, direto, derramado) ceda lugar ao CONOTATIVO, ou seja, o vocábulo subvertido em seu sentido original através do recurso da utilização da METÁFORA, caracterizando a linguagem velada: o véu sobre o fato subjacente tido, havido, vivido, lido ou idealizado... Abordagem talentosa e criativa de forma a que exsurja o poema como peça autônoma, valendo por si próprio – palavras que sugerem, mas não dizem e que têm o condão de emocionar aquele que toma conhecimento delas, apesar de sua codificação... A linguagem metafórica na peça ora em exame permanece muito tímida, prejudicando o surgimento do verso com elementos poéticos esteticamente válidos e ritmicamente agradáveis. Ainda há, em regra, a ladainha intimista que, por vezes incomoda o leitor exigente que deseja sentir o poema com Poesia e não somente o costumeiro recadinho de amor juvenil. O leitor exigente sabe o que quer. O aficionado percebe o Belo e não se engana com doces palavras que encantam o coração, mas que de linguagem poética pouco contém. A amada Poesia agradecerá o desvelo do autor. E o tempo se encarregará da permanência (ou não) dos versos...





– Joaquim Moncks, do livro OFICINA DO VERSO, 2015/16. Revisado.

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