TEORIA LITERÁRIA: A DAMA DA LINGUAGEM E O PAGODE NO BOTECO


Em "Pagode no Boteco" temos um exemplo de uma Prosa Poética com grande presença de metáforas de imagem. Como podemos verificar, Joaquim Moncks trabalha a metáfora em praticamente todas as suas produções literárias. Para ele, sem a dama da linguagem não há Poesia. Vejamos quando ele diz: “Tanto em uma como em outra classificação de textos em que a Poesia está presente, ocorre a necessidade do aparecimento da 'dama da linguagem' a que denominamos METÁFORA e que permite que exsurja duplo sentido: o conotativo e o denotativo. Constrói-se, deste modo, uma multivalência de interpretações do que está posto. Na prosa poética ou no poema em prosa a exigência da metaforização é sensivelmente menor - mais rarefeita - do que na especificidade POESIA. Além de que as exigências de ritmação e cadencimento dos versos (no caso do poema em prosa) são menos específica, Excertos do texto  O COTIDIANO FALADO E ESCRITO, do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006/2008”. www.recantodasletras.com.br/cartas/991444 .


Vamos lá, ter um encontro Poético com a Dama da linguagem?

Por Darcila Rodrigues   







PAGODE NO BOTECO


O bandolim é uma lua cheia em fuga, que ganhou braço e cordas. Os dedos sobre ela produzem a estridente voz da solitude, domando centauros que perderam suas lanças e ganharam cavilhas. O violão é uma senhora gorda que gosta de ser bolinada e canta. O cavaquinho é um violão que se esqueceu de crescer. O surdo só não ouve porque perdeu o grito, de nascença. O tamborim é um careca que gosta de bater palmas. O agê é uma coroa girando na cabeça de um rei negro. O chocalho é uma lata de arroz que não foi cozido. O pandeiro é uma pizza com orelhas, metida a besta. Bebuns, dependurados, pingam no balcão. Mulher mesmo, só a música – nua – no ar. E que ninguém se meta a esconder o microfone. Vai pagar o pato – assado ou cozido. O pagode, enfim, é o gato e o rato – de mãos dadas. Alguns miam e remexem o rabo. E haja bafo de tigre louco na boca dos pagodeiros. A balada nunca termina enquanto houver som, ceva e pinga, para o desespero dos vizinhos. Em casa, o artista do bole-bole sabe que há um tamanco atrás da porta esperando a sua chegada... Alguém ladra neste inferno de sons e ritmos. A titular não admite competição. Nem mesmo o amor à música. Todos, enfim, psicopatam-se dando letras e gestos, no palco das ilusões.

– Joaquim Moncks, do livro O AMAR É FÓSFORO, 2012.
http://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/2210213


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