TEORIA LITERÁRIA: A CORREÇÃO DO POEMA

Sobre o texto A CORREÇÃO DO POEMA:quem conhece Joaquim Moncks em seus momentos de oficinação, como mestre escriba, sabe do peso de sua mão professoral. Alguns (os desavisados) poderão experimentar um certo estado de "vexame íntimo" ou quem sabe, vontade de nunca ter publicado aquela "sopa de letrinhas", porém, acreditem, se sobrevivermos ao primeiro teste, o da transpiração pelas mãos do JM, certamente descobriremos o pote de ouro escondido por detrás do arco-iris que esse artista das letras consegue colorir com suas "sacadas" e "caminhos verbais" que sempre nos oferece generosamente, enquanto a caneta cumpre o papel de um bisturi nas mãos do cirurgião do poema. É como dizia Guimarães Rosa: "O que a vida quer da gente é coragem", quanto ao estudo da palavra poética, ela requer mais: coragem e  muito trabalho, que  segundo Joaquim Moncks se reflete no resultado do segundo momento da criação, a transpiração, aquele que sobrevém à inspiração.  


Darcila Rodrigues
Então, coragem e mãos à obra?
A CORREÇÃO DO POEMA - JOAQUIM MONCKS 

Corrigir a forma poética é de somenos, e poderá ou não acrescentar ao poema como objeto estético, mas sempre acrescerá o autor de alguma reflexão espiritual válida como densidade humana. Portanto, há, no mínimo, três benefícios palpáveis no produto final: forma e formato mais belos, visível veracidade no poema, e o apaziguamento da ansiedade do Ego pela sensação psíquica de “estar sendo visto”, observado, prestigiado. No entanto, a cirurgia na peça escritural fruto da inspiração pode deixar no inexperiente criador poético uma apreciável sensação de frustração. Em regra, intimamente o autor reclama: “mexeram no meu poema, então ele não é mais meu!” Mal sabe ele que aquilo que está avaliando (erroneamente) é o resultado da terapia psíquica que o poema produz em sua cuca, especialmente nos territórios do lírico-amoroso. Muitos talentos futuros morrem neste instante, devido à insegurança psíquica ou excesso de vaidade. É necessário fazer a notação de que, a rigor, a confecção do poema é um exercício artístico pelo qual o poeta pretende apresentar ao mundo um relato pejado do tido, vivido, lido ou havido de sua historieta pessoal. É um produto estético que envolve beleza e talento. Não se confunde com o divã do analista. No entanto, o poema é produto da mais profunda confidencialidade, e pode nascer no tal momento do divã. Porque Poesia é a transfiguração da realidade, a fim de se poder viver com alguma alegria e dignidade. E lograr que o poema seja um jorro de felicidade a expulsar o mal pela raiz. A hostilidade que assola o vivente e que, curiosamente, produz o resultado artístico na garatuja poética, fruto do bafejo benfazejo do Belo.


Joaquim Moncks – Do livro OFICINA DO VERSO, 2015/16.

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